Quando o trabalho das famílias define a infância

O modo como a vida profissional das famílias se organiza, tem um impacto na vida das crianças, até quando este não é visível.

A infância é vivida ao ritmo dos horários dos adultos, dias longos, entradas precoces na escola e saídas tardias da escola, rotinas aceleradas, tempo demasiado contado e controlado.

As crianças passam grande parte do dia em contextos educativos e regressam a casa cansadas, muitas vezes com pouco espaço ser criança, brincar sem pressa, conversar, imaginar,… e tudo o que necessitam para um crescimento saudável.

A vida profissional das famílias, sobretudo quando marcada por exigência excessiva, tende a reduzir o tempo de qualidade em família. Não se trata, apenas, da quantidade de tempo, mas da disponibilidade emocional que as famílias acabam por ter para os filhos.

Pais cansados, preocupados ou sob pressão têm, naturalmente, mais dificuldade em estar presentes de uma forma plena, e com a entrega que as crianças merecem.

E as crianças sentem isso.

Por outro lado, estas dinâmicas influenciam a forma como as crianças vivem a escola. Para muitas delas, torna-se um espaço permanência prolongado, quase substituindo o tempo familiar.

Estas situações podem trazer oportunidades (nas relações, nas experiências, nas aprendizagens) mas levanta desafios, que nos fazem refletir, até que ponto estamos a respeitar os ritmos e as necessidades reais das crianças?

Até que ponto a sua necessidade de vínculo familiar, descanso e de brincar está a ser assegurada?

As crianças que passam muitas horas afastadas dos progenitores, ou de figuras de referência podem manifestar cansaço, maior irritabilidade ou necessidade acrescida de atenção e de proximidade. Outras desenvolvem uma autonomia precoce, mais adaptativa ao contexto e de um modo exagerado, de sobrevivência.

Importa olhar para esta realidade sem julgamento, mas com consciência. As famílias fazem o melhor que podem dentro das condições que têm. O desafio é coletivo, da escola, das políticas públicas e da sociedade.

Há que ciar condições para que o tempo das crianças não seja constantemente aprisionado ao tempo do trabalho das famílias.

A infância não se adia, e o que falta hoje não se recupera.

Precisamos de proteger o tempo das crianças e o tempo das famílias.

Tem de existir o tempo de estar, de escutar e de partilhar.

Educar não pode ser delegado, apenas, à escola, é, antes de tudo, uma responsabilidade vivida em família.


Rui Inácio

Uma Caixa Cheia de Nada


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