“O meu filho fala brasileiro, porque tem muitos colegas brasileiros”
Estas frases que se ouvem e que se tornam um pouco ofensivas, são ditas de um modo leve, como se estivessem a comentar o estado do tempo, ou algo banal. Mas vêm carregadas de significados pouco conscientes e que tendem a carregar nos outros as próprias culpas.
“O meu filho fala brasileiro, porque tem muitos colegas brasileiros.”
Será isso mesmo, ou será que o sotaque que já utilizam surge, também da exposição excessiva a ecrãs sem o devido acompanhamento?
A utilização do português do Brasil não vem das relações que se constroem enquanto brincam, poderá, eventualmente algumas influências nas expressões e na forma de estar. Mas, não é tudo.
Hoje, as crianças convivem com outras culturas e, isso é, em si, um contexto diversificado e rico, promove a diversidade linguística, os diferentes modos de falar, e até o conhecimento de expressões que se cruzam nas salas e fora delas. Não é esse o problema, nunca foi.
O que merece reflexão não são as crianças com diferentes culturas, mas sim outro facto.
Quantas horas passam as crianças expostas a conteúdos digitais sem o devido acompanhamento?
Quantas expressões entram nas suas casas sem que os adultos se sentem ao lado para escutar também?
Quantas vezes o telemóvel se torna um substituto?
Substituto da conversa, substituto do tédio, e de uma forma mais agravada, substituto da presença.
Há uma grande diferença entre uma criança que utiliza diferentes entoações porque brinca com amigos de várias culturas… e uma criança que replica expressões, ritmos e formas de falar que nunca experimentou, mas sim, apenas consumiu a partir das ecrãs.
Não se trata de “certo” ou de “errado”, mas sim, de consciência.
O telemóvel e os tablets entraram na vida das crianças como um recurso, e pode, de facto, ser um recurso extraordinário. Pode aproximar, pode ensinar, ou até despertar curiosidade, mas, sem mediação, transforma-se facilmente num espaço e tempo de consumo contínuo, onde a própria criança não escolhe, apenas absorve e apropria.
Consome palavras, gestos, formas de esta, canções e até ações que não são suas. Compactua com silêncios sem filtros e sem entendimento claro, consome.
Quando o telemóvel e o tablet passam a ser o “entretém” preferido, aquele que ocupa os tempos livres, preenche-se um vazio e retira-se o essencial às crianças, o tempo para brincar, de imaginar, de criar e, até, o tempo em família,
A questão a colocar não é “porque é que o meu filho fala assim”, mas sim, com quem (e com o quê) ele está a “conversar” todos os dias?
Sabemos que a relação é a base da educação e os colegas são importantes neste processo. As relações reais deixam marcas na identidade e da própria personalidade. Não podemos ignorar que, hoje, é uma presença constante na vida das crianças, que está sempre à mão, mas que também educa, e principalmente, influencia.
Essa presença precisa de adultos por perto, não para proibir ou para controlar, mas para acompanhar, dialogar e dar sentido ao que vê.
Numa sociedade tecnológica não podemos afastar as crianças da tecnologia, porque o problema não é estar presente, mas sim, a ausência do acompanhamento das crianças quando a utilizam.
Estamos a delegar a educação nos ecrãs, sem a nossa presença. E como sabemos, na infância, tudo o que educa tem peso.
Se não estivermos para educar, falhamos, e as soluções não são as melhores, e quando percebermos, já será tarde.

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