A Infância não se traduz em diminutivos
A linguagem é uma das formas de expressão infância que mais impacto tem na vida das crianças. É através dela que as crianças constroem significados, organizam o pensamento, estabelecem relações e assumem uma comunicação com os outros. As palavras que os adultos escolhem, e a forma como as utilizam, transportam intenções, revelam expectativas e mostram a forma como olham para a infância.
Quando falamos com crianças, é muito comum recorrermos a diminutivos: “vamos para a escolinha”, “dá a mãozinha ao coleguinha”, etc. Está muito presente na nossa cultura a ideia de que a infância é frágil e delicada e que, por isso, tudo à sua volta também precisa de “inhos”.
O estamos realmente a transmitir quando utilizamos, constantemente, os diminutivos?
As crianças não frequentam uma “escolinha”. Frequentam uma escola
Não levam uma “mochilinha”, nem bebem “aguinha”, nem comem “carninha”.
Quando usamos diminutivos de forma constante, corremos o risco de desvalorizar o discurso e, inclusive, aquilo que as crianças vivem e fazem. A experiência das crianças é algo com valor, as suas descobertas, as suas emoções, as suas relações e os seus conflitos, são apropriações e construções da realidade.
A linguagem molda a forma como a criança se percebe a si própria e como olha para o mundo. Quando o discurso do adulto se torna infantilizado, pode transmitir, mesmo que sem intenção, que aquilo que a criança vive é desvalorizado. A infância não é uma versão reduzida da vida adulta. É uma etapa fundamental, intensa e cheia de significado no crescimento do Ser Humano.
As crianças estão num processo contínuo de aquisição e de consolidação de vocabulário e, por isso, precisam de contacto com palavras variadas, ricas e significativas. Quando substituímos, constantemente, as palavras pelos diminutivos, estamos a reduzir a diversidade linguística a que têm acesso. E sabemos que as crianças aprendem muito a partir do modelo que lhes oferecemos.
Os diminutivos fazem parte da nossa língua e têm o seu lugar, não podem deixar de existir, mas não os podemos ridicularizar. O problema não está no uso pontual, mas quando se transformam numa forma automática de falar com crianças.
A questão que se levanta é centrada na valorização da fala com crianças, reconhecendo-as como pessoas, com respeito e com autenticidade. Ajustar o discurso à idade não significa simplificar em excesso, nem transformar tudo em diminutivos, significa escolher palavras acessíveis, construir frases claras, explicar, quando necessário e, sobretudo, escutar.
Quando dizemos “a nossa escola”, estamos a criar sentido de pertença.
Quando nomeamos emoções, tristeza, frustração, alegria, estamos a fornecer às crianças ferramentas para compreenderem aquilo que sentem.
No fundo, a forma como falamos revela a imagem que temas das crianças. Se as vemos como seres frágeis e incapazes, o discurso tende a tornar-se redutor. Mas se as vemos como competentes, curiosas e capazes de pensar, o discurso transforma-se numa forma de potenciar a descoberta e despertar para a curiosidade.
Educar é, também, cuidar da linguagem.
Cada palavra constrói uma perceção do mundo, e as crianças merecem reconhecer esse espaço de um modo inteiro, e não através de diminutivos.

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