Antecipação das aprendizagens do ciclo seguinte? Um verdadeiro mito.


Pressionados pela sociedade e pelas ideologias centradas no sucesso e no resultado, somos, diariamente, confrontados com estas exigências: aprendizagens precoces que tendem a tornar o próximo ciclo um momento mais tranquilo e harmonioso. Mito.

Não se preparara nada com esta antecipação.

O crescimento/desenvolvimento infantil é realizado pelos seus timings individuais e não pelas necessidades de lhes dar já, desde tenra idade, um currículo baseado numa profissão que nem sabemos se irá existir. Currículos centrados nas temáticas e longe do interesse individual.

Afastemo-nos da ideia de proporcionar momentos que tendem a preparar as crianças para o 1º ciclo, nomeadamente, o aprender a estar sentado, o aprender as letras e os números, somas e substrações, ou seja, as competências que tendem a surgir no ciclo seguinte de uma forma programada, curricular e especializada.

Esta exigência que se torna cada vez mais regular e preocupante, leva a que os pais sintam a necessidade e a vontade de que, crianças designadas condicionais, transitem para o 1º ciclo, apenas, porque revelam uma capacidade incrível no conhecimento de conteúdos específicos. No entanto, a preparação para o 1º ciclo não passa pelo aprender a estar sentado, não passa, de todo, pela capacidade de passar o lápis em cima dos tracejados ou do percurso que a abelhinha faz. Não passa pelo conhecimento que tem relativamente aos dinossauros, aos planetas ou ao reconhecimento de números. Não passa…

É de valorizar todos os conhecimentos que trazem consigo. Certíssimo, e isto não é um mito. É de valorizar o interesse e a motivação que trazem e aproveitá-los na construção de estratégias únicas, de interesses únicos e que valorizam a sua curiosidade e a sua motivação.

Esqueçam a preparação para o 1º ciclo na forma como a conhecemos, ou como exigem. Permitam que vivam o tempo do jardim-de-infância, como um tempo rico em aprendizagens, atribuindo ao que se designa como preparação, não uma lista de competências e conteúdos adquiridos, mas o saber-estar, saber-fazer, saber-ser. Saber ser grupo, viver a estabilidade emocional, a confiança, a motivação, a concentração e resiliência. Que não os ensinem a valorizar somente o resultado, mas sim, que atribuam ao caminho que percorrem a valorização devida e tudo o que este percurso lhes permite experimentar.

Tendemos a esquecer os esforços, as derrotas, as conquistas e revelamos somente a meta alcançada. Mas como queremos relembrá-los das emoções e dos sentimentos que tiveram ao longo do percurso, se apenas continuamos concentrados na capacidade de reconhecer as letras e os números.

Onde ficam as restantes competências que valorizam o ser humano e, neste caso, as crianças nesta transição?

É através de uma ficha (redutora), da insistência em se manterem sentados, porque estão a treinar, na realização de comboios, ou na excessiva preocupação por fazer trabalhos que serão esquecidos nas pastas, que se preparam as crianças para o ciclo seguinte? Não… esqueçam este mito.

Esqueçam o mito de os sobrecarregar com trabalhos afastados dos seus interesses, das festividades, das fichas e das propostas vendidas que se encontram nas redes sociais.

A preparação para o 1º ciclo torna-se fundamental nas atitudes, na valorização do eu, de os tornar confiantes e dispostos a agir em situações imprevistas. É uma preparação centrada na vertente emocional, que os pretende em equilíbrio, com a capacidade de reconhecer o que eles e os outros sentem. É viver o respeito, a auto e interajuda, a capacidade de concentração através de jogos, de brincar, de se aventurarem, de se tornarem audazes em tudo o que fazem e se propõem a fazer.

Este mito, enraizado ao longo dos tempos, aniquila qualquer tentativa de reconhecer as crianças como elas o são na realidade. Elimina as tentativas de valorizar a Educação de Infância na sua plenitude, é sim, refletida em práticas estereotipadas, que erradamente afirmam que respeitam as crianças. São práticas que em nada refletem o ser criança, respeitar a criança e a sua agência no processo.

Com que olhos olhamos para o que acontece à nossa volta?

Pais, Educadores de Infância, profissionais de educação, como agimos diariamente com as crianças e que propósitos assumimos nas nossas práticas?

Queremos, de um modo constante, fazer com que as crianças sintam vontade de regressar dia após diaà escola, mas continuamos a dar tiros nos próprios pés, quando exigimos trabalhos e trabalhinhos aos educadores que em nada reflete os valores da Educação de Infância e muito menos, a infância. Os educadores reforçam estas premissas numa prática pouco refletida e que tende a valorizar, tantas vezes, o mito.

Respondam, simplesmente, o que defendo, como defendo, como torno as minhas prioridades visíveis aos pais?

Estes mitos têm de ser clarificados, e devemos sim, mostrar a real necessidade das crianças. E se falamos em transições, que nos tornemos conscientes do que exigimos, que nos tornemos conscientes dos propósitos. Não se deixem levar pelas comparações com o filho do vizinho, com a antecipação da leitura e da escrita, com o orgulho em ver que o vosso filho, ou as vossas crianças já sabem reconhecer todas as letras. Deixem-se disso.

Orgulhem-se em sentir os vossos filhos seres únicos, seres que além de deterem um conhecimento inigualável, são crianças emocionalmente equilibradas, que aceitam as quedas e aprendem com elas, que se desafiam, que se sabem motivar e concentrar quando estão a brincar, que criam processos e valorizam o caminho que percorrem. Orgulhem-se das feridas que têm, são marcas de uma infância feliz, de aventura, de contacto consigo e com os outros, relações que se tornam fundamentais nas transições. Sintam e orgulhem-se do tempo que eles gastam a brincar, porque aprendem a lidar com o imprevisto e com a frustração sempre que uma construção se desmorona.

Esqueçam os mitos de uma vez por todas, não sejam orgulhosos na valorização do que não deve ser valorizado. Ensinem os vossos filhos a serem melhores e não os melhores, porque de facto, essa confiança será fundamental para o ciclo seguinte.

Não lhes ponham sobre os ombros um peso precoce desmedido e sem sentido. Criem momentos em que a interação é fulcral. Permitam que brinquem, pois é nesses cenários que as melhores aprendizagens se constroem, é nesses cenários que o processo de construção interior se constrói e se vai tornando visível. Assumam cada momento de brincar como uma preparação para o 1º ciclo, onde contam, relacionam, responsabilizam-se, interagem, criam mapas mentais absolutamente fabulosos, em que a imaginação e a criatividade andam de mãos dadas. Não se deixem cair no erro das comparações, dos mitos irrisórios que moldam a personalidade de um modo negativo.

Esqueçam o mito, permitam que vivam a infância de um modo pleno, sem pressões, deixando-o viver o seu tempo, à sua medida, ao sabor do seu interesse, valorizando cada passo que é dado. Permitam que continuem esta preparação, não para o ciclo seguinte, mas para a vida. Porque a vida de cada um já começou e as memórias fundamentais já começaram a ser construídas e a definir os caminhos que seguem. São seres em construção.


#umacaixacheiadenada


Rui Inácio


Comentários

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Assistentes operacionais, mais do que um termo, uma profissão.

Estive doente em casa! Tomei o remédio cor de laranja, mas vim à escola!

Grupos de WhatsApp de pais, um obstáculo ou uma potencialidade?